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Sobrecarga sem precedentes

Profissionais da saúde revelam o angustiante enredo da luta contra a Covid-19

Texto e entrevistas por Ruan Rangel e Tiago Marcon


Crédito: Shutterstock

Depois de longas horas na triagem de uma sala de espera lotada e sem assistentes, também afastados pelo vírus, e com a memória das inúmeras mortes vivenciadas nos últimos dias, Débora se depara com uma situação inédita e inesquecível: Um casal de idosos próximo das bodas de ouro tem que se separar antes da internação do patriarca devido a falta de oxigenação, saturação e dispneia, já que os acompanhantes também poderiam ser contaminados ao entrarem na UTI. A dor da despedida faz com que a enfermeira quebre um protocolo: trinta minutos para que digam as últimas palavras de uma vida inteira juntos.


Nem mesmo as noites em claro regadas à calmantes e medo de ficar em casa suprem o sentimento de insuficiência causado pelo trabalho disposto pela linha de frente à pandemia, mas um alívio chega em meio ao caos: Alguns dias depois, a idosa volta ao hospital com a filha para agradecer o gesto de carinho realizado por Débora, em meio ao luto profundo.


Desespero, angústia, pânico, ansiedade e incerteza: Estes são alguns dos sentimentos externalizados por enfermeiras e profissionais que atuaram em diferentes áreas da saúde durante os dois anos de intensa luta contra o vírus SARS-CoV-2, gerador da Covid-19. Ademais, a constante preocupação com familiares aumentou os níveis de estresse, ansiedade, fadiga e sobrecarga em médicos e enfermeiros brasileiros.


Segundo dados do Conselho Federal de Medicina (CFM), para 96% dos médicos a pandemia causou impactos na vida pessoal ou profissional. O aumento do nível de estresse foi relatado como principal impacto por 22,9% dos entrevistados. Lidar com uma doença tão desconhecida também gerou percepções que incluem sensação de medo ou pânico em 14,6% deles.


Também houve relatos de diminuição no tempo dedicado às refeições, família e lazer (14,5%); e de comprometimento de horas de descanso, bem como no nível da qualidade do sono (7,6%); entre outros fatores. O impacto negativo nestes itens não só retiraram o bem-estar daqueles que doaram todo o tempo aos pacientes e transformaram o hospital em casa, mas agravaram quadros de ansiedade e levaram ao aparecimento da síndrome de Burnout.


“Eu já estava me percebendo mais ansiosa, com insônia e crises de pânico. Cheguei ao ponto de ter delírios, desencadeando transtorno misto (depressão e ansiedade) e cheguei a ser afastada do hospital pelo meu psiquiatra por 10 dias. Meu ex-marido, que também atuou na emergência, pediu demissão de dois hospitais porque estava tendo crises de pânico recorrentes, quando ia ao plantão e acabava internado para tomar medicações. Trouxe impactos não só individuais, mas também no nosso casamento de 11 anos”, detalha Débora Abreu, pós-graduada em UTI e docente em gestão hospitalar, com as imagens dos momentos passados ainda na cabeça.


Outra pesquisa, realizada pelo Instituto Qualisa de Gestão (IQG), aponta que 93,3% dos profissionais de saúde que trabalham no serviço público da Capital Paulista apresentaram, ao longo de 2021, quadros de sobrecarga mental e sensação de fadiga. 92,2% destes relacionaram o estresse do trabalho à irregularidade do sono e apetite, além de enjoo e náusea. “Hoje eu não tomo mais as medicações fortíssimas que cheguei a tomar até o início desse ano, mas ainda preciso fazer uso do antidepressivo e faço terapias”, complementa a enfermeira.


E não é só ela: 67,8% dos médicos entrevistados pela IQG experimentaram sentimentos de “inadequação nas suas habilidades de atendimento” e 68,5% dos profissionais afirmam que, após experiências ruins, sentem medo de tentar repetir procedimentos difíceis ou de alto risco.


Pressão e medo viraram rotina

Notícias sobre a superlotação das redes de saúde tornaram-se comuns em 2020 e 2021, mas não foram só os pacientes que sofreram as consequências. Maria Helena Machado, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz), destaca que a situação dos profissionais, que já era precária antes da pandemia, se agravou: eles relatam salários baixos, perdas temporárias de férias, corte do adicional de insalubridade, horas extras, sobrecarga de trabalho sem recompensa financeira, psicológica ou emocional. “Destes, 70% são mulheres. Na enfermagem, chegam a 85%, resume. Na rede privada de Sorocaba, a enfermeira Angélica Thomaz destaca que os impactos foram sentidos por toda a equipe: “Foi um momento de medo e impotência para todos do hospital. Tenho amigos que preferiram procurar outros empregos porque não aguentaram ficar longe da família ou fazendo o trabalho de muitos. Não só na UTI, que sofreu mais com a superlotação, mas a limpeza, recepção, cozinha e outras áreas sentiram a pressão de não saber o que vem amanhã.”


De acordo com os resultados da pesquisa Condições de Trabalho dos Profissionais de Saúde no Contexto da Covid-19, realizada pela Fiocruz em todo o território nacional, a pandemia alterou de modo significativo a vida de 95% desses trabalhadores. Os dados revelam, ainda, que quase 50% admitiram excesso de trabalho ao longo desta crise mundial de saúde, com jornadas para além das 40 horas semanais, e um elevado percentual deles necessita de mais de um emprego para sobreviver.


Além da pressão momentânea, alguns profissionais também lidaram com algumas primeiras vezes durante a pandemia. “Eu sou formada como técnica de enfermagem, a gente aprende o básico e quando você chega no hospital, chega cru. A parte de estágio deveria ser mais aprofundada, vejo isso pelos meus amigos de profissão. Nós cuidamos de vidas, então o preparo tem que ser cuidadoso, para exercer a função com excelência”, conta Stela Souza, que conviveu com a Covid durante o seu primeiro emprego depois do estágio. “Assumi o cargo de assistência no auge da pandemia, em 2020, e foi um teste de fogo. Nossa rotina de trabalho era contato direto com pacientes e familiares dos mesmos, não sabíamos se seria nossa vez de ir para o tubo no dia seguinte, se seria um familiar ou até um amigo de trabalho, pânico seria a definição”. Até mesmo nos empregos não totalmente prioritários na linha de frente, a carga não era mais leve, como conta a assistente social Marília Loren.


Em estudo para o Departamento de Atenção à Saúde da UFRGS, a psiquiatra Carolina Moser discorreu sobre a saúde mental dos profissionais da saúde durante o enfrentamento da pandemia e revelou qual cargo foi o mais prejudicado: “Um dos aspectos observados é que os técnicos de enfermagem são os profissionais da saúde que têm os mais altos índices de depressão e burnout (exaustão extrema relacionada ao trabalho)”.


Dores da perda e do cotidiano

As preocupações com família, contágio e falta de convívio social afetaram a maioria da população, mas com certeza o contato direto com os casos aumenta tudo. “A parte que impactou muito a minha vida foi dar o real valor às pequenas coisas, a gente não sabe o dia de amanhã, sempre pensar se estou vivendo o que tinha que viver. É o que todo mundo diz, a vida é um sopro. Respirar pode ser uma tarefa muito difícil, mais difícil do que parece, tinha pessoas que faziam cartas porque sabiam que não iam sair daquela situação”, detalha Stela. Problemas psicológicos também vieram acompanhados de diversos efeitos pessoais. A enfermeira Lidia Fidêncio conta sua experiência: “Não cheguei a parar de trabalhar, mas desenvolvi síndrome do pânico e burnout. Durante seis meses, não teve um dia que eu não chorava, cheguei a engordar 10 kg em apenas um mês. Não conseguia ter uma relação próxima com ninguém, terminei um namoro na época, por conta do estresse tivemos muitas brigas. Ainda tenho algumas crises de ansiedade, mas estou bem melhor”.


Para a assistente social Marília, também foi difícil lidar com a dor da perda.“Uma colega da enfermagem perdeu sua mãe e não tínhamos mais nada a oferecer além de nossa fé. A maioria dos profissionais trabalhava em dois hospitais, com medo de voltar para casa para não expor a família, sem esquecer dos pacientes que eles viram evoluir para óbito, sempre com aquele pensamento de preocupação eterna”.

Andressa Regina, especialista em unidade de Terapia Intensiva, falou como foi angustiante lidar com a pandemia, até mesmo ao tentar descansar. "Sabe quantas vezes eu ouvi ‘Segura a minha mão, posso falar com a minha família pela última vez?’ Quantas vezes ouvi ‘porque nos deixou?'. Todas as vezes em que me deitava no travesseiro, essas palavras ecoam em minha mente até eu cair no sono. Enquanto a água tocava o meu rosto no banho, as lágrimas vinham. Era muito difícil controlar as emoções".


Infraestrutura do improviso

Na maioria dos depoimentos, os profissionais deixam claro que o despreparo das secretarias de saúde com a distribuição de materiais foi o principal impacto de gestão que dificultou o trabalho. “Quando eu estava atuando no SUS, na segunda onda, a culpa não era tanta da administração do hospital e sim da falta de repasse necessário. Teve uma situação em que acabou o oxigênio do hospital e tivemos que usar um reanimador manual para cada paciente”, detalha Stela Souza.


Ela ainda complementa sobre um caso de escassez de materiais. “A pressão dentro do hospital era muito grande, a gente tinha que lidar com muito ‘improviso', já que faltava de tudo. Tivemos que fazer campanhas, pois estávamos necessitando de materiais como máscaras e fraldas”.


Para outras, a falta de materiais e infraestrutura foi inevitável devido às circunstâncias, como conta a docente de educação continuada, Débora: “Falta de infraestrutura adequada para o número de pacientes atendidos por dia, nenhum hospital estava equipado para sobreviver a uma pandemia. Fizemos o nosso melhor dentro dos recursos que tínhamos”.


“Quando se trata de uma unidade pré-hospitalar no coração de Sorocaba, poderia ter sido pior. Na minha visão, o covidário - setor hospitalar isolado para tratar a doença em Sorocaba - criado pela prefeitura nos deu suporte no auge do colapso, mesmo faltando insumos e tudo mais”, ressalta Andressa Regina, enfermeira do setor semi intensiva e clínica/cirúrgica de Cardiologia.


Em contraponto, na tese ‘Pandemia: três momentos críticos para a gestão da saúde pública no brasil em um ano’, a pesquisadora Francis Sodré, do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), resgata: “Esses quatro meses iniciais com três ministros da saúde à frente da pasta da saúde finalizam com a militarização do Ministério e a ocupação de militares nos cargos principais da gestão da política de saúde no Brasil, e permanecem durante todo o ano de 2020 até 2021 mesmo com o aumento exorbitante do número de casos e óbitos”.


Nesse período, houve liberação do uso da hidroxicloroquina e cloroquina, defesa do tratamento precoce, minimização do tamanho da pandemia, questionamento da “ansiedade” da população em relação ao início da vacinação, até a chegada dos recordes de mortes diárias.


O outro lado da moeda

Simultaneamente aos depoimentos ligados aos fatores negativos do trabalho na pandemia, uma pequena parcela dos médicos, identificada por pesquisa do Conselho Federal de Medicina (CFM), ressalta que o novo cenário também reforçou seu compromisso com a medicina e saúde da população, fortaleceu sua imagem como profissional diante da comunidade, melhorou sua relação com pacientes e outros profissionais de saúde, e até estimulou a aproximação com as entidades médicas.


Lidia trabalhou em dois hospitais de Sorocaba durante a luta contra a doença, um privado e um público, e nos detalha como se sentiu: “Trabalho na área da saúde há 4 anos, e não éramos valorizados ou pressionados da forma que fomos durante a pandemia. De certa forma, a valorização foi gratificante para todos nós, porém o fato de estarmos lidando com uma doença ainda desconhecida, nos destruiu”. Sobre os seus colegas de trabalho, ela conclui: “Acredito que a quantidade de mortes foi o que mais me abalou, isso no meu ambiente de trabalho. Diversas notícias de falta de recursos me deixaram muito abalada, mas com orgulho de ver tantos profissionais empenhados a salvar vidas”.


Após dois longos anos de espera, dados atuais do consórcio de imprensa divulgados pelo G1 demonstram que mais de 80% da população brasileira está totalmente imunizada contra o vírus. Desde fevereiro, o número de casos da doença mantém-se abaixo do pico alcançado em 2022, mas a luta não acabou: a alta constante de testes positivos dos últimos 20 dias revela que o corona e suas variações permaneceram nos hospitais por mais tempo, desafiando os profissionais dedicados a salvar vidas.


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