Por que a Netflix não deve cancelar Heartstopper
- Beatriz Salim dos Santos

- May 7, 2022
- 3 min read
Updated: May 22, 2022
Em meio a crise, Netflix acerta em cheio com o romance juvenil.

A série “Heartstopper” é a queridinha do momento na Netflix. Com 100% de aprovação no site especializado Rotten Tomatoes, a série conquistou muitos fãs, e se encontra no top 10 de diversos países desde o seu lançamento.
Ao longo dos 8 episódios, conhecemos a história do tímido Charlie Spring, um adolescente gay recém assumido, que se apaixona por seu mais novo amigo, o gentil e popular Nick Nelson, astro do time de rugby. A série, baseada nos livros em quadrinhos de Alice Oseman, mostra que Charlie passou boa parte do ano anterior escondido em uma sala de aula vazia para evitar o bullying, até que ele conhece o Nick. Só havia um porém: Nick Nelson era, aparentemente, hétero. À medida em que eles vão se aproximando, vai se formando um elo forte entre os dois, de um jeito adorável. Nick se torna um defensor de Charlie, e quer passar cada vez mais tempo com ele. Já Charlie, está totalmente apaixonado, mas ele acredita que a relação nunca passará de amizade.
O mais encantador em “Heartstopper” é a leveza com que tudo é contado. É um romance gay mas, diferente da maioria dos filmes e séries com essa temática, o foco não é na dor, sofrimento e homofobia, e sim nos conflitos adolescentes, diferentes dos que estamos acostumados a assistir. Não é um conto de fadas, mas é mostrado de uma forma muito mais leve, sem que a gente fique esperando por uma tragédia. Nos remete um pouco ao filme “Com amor, Simon”, outra rara exceção do gênero.

Além de acompanhar Charlie e Nick se apaixonando, há outros destaques que tornam a trama ainda melhor, como a melhor amiga de Charlie, Ellie, uma garota transexual que acabou de mudar da escola só para garotos Truhan, para a escola só para garotas Higgs; o casal lésbico Tara e Darci e como sua relação é mostrada; e ainda temos Tao, o melhor amigo superprotetor de Charlie, e o observador Isaac.
A série é um mergulho na vida de Charlie, Nick e seus amigos, e podemos acompanhar um pouco o amadurecimento de cada um, seus conflitos internos, e a descoberta de suas verdadeiras identidades, pois todos eles estão em fase de transição. Como Ellie, que demora a fazer amizade na nova escola, pois tem receio devido ao fato de ser trans, ou o Tao, que está com medo de perder os seus amigos e protege Charlie a qualquer custo.
Outro ponto positivo é a diversidade do elenco e de temas, aborda sexualidade, bullying, saúde mental, aceitação, entre outros. Se fosse um romance hétero e Charlie fosse uma garota, seria o típico romance cliché ao qual já estamos acostumados: a garota excluída que se apaixona pelo astro do time da escola. A verdade é que é um romance cliché, mas o fato da história ser entre dois garotos, contada de forma leve e divertida muda tudo. Esse tipo de representatividade é muito importante, principalmente para os jovens de hoje em dia.

“Heartstopper” chegou na hora certa. Pela primeira vez em sua história, a Netflix registrou uma grande perda de assinantes no primeiro trimestre desse ano. Cerca de 200 mil usuários deixaram a plataforma, quando a expectativa era de ganhar mais de 2 milhões de clientes. Um dos motivos seria o crescimento no número de streamings atualmente, com preços mais atrativos. Isso, somado ao fato da Netflix ter um grande histórico de cancelamentos, pode ser motivo mais que suficiente para que as pessoas migrem de serviço de streaming. Muitas séries e filmes deixaram o catálogo da empresa pois estúdios como Disney e Warner Bros, donas de produções importantes, criaram o seu próprio serviço de streaming, como o HBO Max, Disney+ etc. Com isso, a Netflix investe cada dia mais em produções originais, porém nem todas dão o retorno esperado, e grande parte delas acabam sendo canceladas.
Por qual razão eu vou pagar mais caro na Netflix sendo que há grandes chances de eu não ver o final de uma série que eu gostei? Muitos assinantes podem questionar isso, como aconteceu com os fãs de “Sense8”, “Anne with an E”, e mais recentemente, “Julie and the Phantoms”.
Por esses motivos, seria um tiro no pé cancelar “Hearstopper”, pois além de ter qualidade e falar sobre temas importantes, conquistou tanto o público que já havia lido o livro, quanto um público totalmente novo, que se encantou com a pureza e delicadeza da relação entre Charlie Spring e Nick Nelson.
Até o momento, a Netflix não anunciou a segunda temporada, mas para quem gostaria de saber o que acontece em seguida, “Hearstopper” conta com quatro volumes publicados, e o quinto e último será lançado no início de 2023.



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