Em metamorfose, Rosalía se revela mais autêntica com MOTOMAMI
- Ruan Rangel Silva

- Apr 23, 2022
- 2 min read
Updated: May 22, 2022
O terceiro álbum de estúdio da artista espanhola agradou a crítica e os fãs, que aguardavam ansiosamente a sequência de 'El Mal Querer'. A turnê do disco passa pelo Brasil em agosto.

Rosalía (28), cantora, compositora e produtora espanhola famosa por suas influências no flamenco e ritmos latinos, lançou seu terceiro álbum de estúdio em março deste ano. MOTOMAMI é um retrato agressivo e emocional sobre as consequências da fama e pandemia na produção da artista, que revelou trazer traços mais pessoais ao novo trabalho. A transformação motivada pelos acontecimentos de sua vida nos últimos anos é representada pelas borboletas que compõem a grafia da capa do disco, inspirada na tradicional pintura renascentista 'O Nascimento de Vênus', de Botticelli. Esse tema central também fica explícito na dualidade causada por faixas que alternam entre ritmos acelerados, com samples que vão do samba à bachata, e baladas melancólicas, sem preocupação com a linearidade. O primeiro single, SAOKO, traduz bem a mensagem que a cantora deseja passar com todo o corpo da obra de dezesseis músicas. Entre versos que discorrem sobre a pluralidade de sua discografia, do lugar pop no qual foi inserida nos últimos anos a um grau de experimentação distante dos hits, ela repete oito vezes a frase "Yo me transformo”. A rispidez da abordagem sobre passagem do tempo dentro de períodos difíceis também pode ser percebida nos títulos, que abusam de repetição de vogais e maiúsculas.

Quebrando a experimentação sonora produzida em algumas músicas mais barulhentas do disco, o autorretrato pessoal é definido pelas faixas que focam na pluralidade vocal de Rosalía, como HENTAI e COMO UN G, que também é trabalhado na intensa G3 N15. Nela, uma mensagem de voz de sua avó é inserida no fim da música, em que ela discorre sobre a importância da família e Deus, principalmente em momentos difíceis de isolamento e distância. Outro tema fortemente trabalhado pela artista em MOTOMAMI é a capacidade de transformação que a fama e riqueza pode causar no indivíduo. Mesmo com referências a marcas de luxo e eventos exclusivos que reproduzem um contexto globalizado, como no feat com Tokischa denominado LA COMBI VERSACE, ela procura a dualidade mais uma vez e mostra que se orgulha de suas raízes na ode à música tradicional espanhola de BULERÍAS. Ademais, algumas boas surpresas acontecem ao longo do álbum: quando achamos que mais uma balada sensível nos será apresentada, a combinação de tiros e um sample de samba bem carnavalesco são inseridos e mudam a trajetória de CUUUUuuuuuute. Além disso, quando parece que não há mais o que inventar, Rosalía nos presenteia com uma audiência ao vivo no poema cantado que conclui o disco, SAKURA, em que ela solta toda a sua potência e transição vocal incomparável.
Em resumo, sempre que um artista consegue fazer da experimentação um sucesso aclamado pela crítica, seu talento é mais do que certo. Rosalía consegue usar com maestria as suas duas versões trabalhadas no disco, MOTO e MAMI. A primeira é forte, movimentada e híbrida, com influências do pop e reggaeton. A segunda é pessoal, sensível e introspectiva. O conjunto forma um álbum completo, intenso, agressivo e autêntico, como os dois últimos anos foram para todos. Ela faz bem o papel de refletir os acontecimentos nas sensações sonoras.



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